Reportagem e fotos sobre as vésperas do segundo turno das eleições presidenciais na França, publicada no jornal Zero Hora, de Porto Alegre.
Cenas da Batalha Francesa
Gabriel Brust, Especial, Paris
A cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais na França, Nicolas Sarkozy decidiu vender cara a iminente derrota para o Partido Socialista de François Hollande. Ao convocar um enorme ato político aos pés da Torre Eiffel em pleno Dia do Trabalho, irritou os sindicatos e provocou diferentes forças políticas do país a se manifestarem. Resultado: as ruas de Paris pararam divididas em três grandes manifestações de apoio a Hollande, a Sarkozy e à terceira colocada, Marine Le Pen.
A agitação política do Dia do Trabalho, somada ao aguardado debate entre Sarkozy e Hollande, marcado para hoje à noite, promete dar um ânimo extra à reta final de uma campanha inicialmente marcada por pouca participação popular. A “eleição mais frívola do Ocidente”, como classificou a revista The Economist no início da campanha, de fato foi marcada por um alto número de abstenções no primeiro turno (20% em um país em que o voto não é obrigatório). Mas os resultados inéditos revelados pelo escrutínio parecem ter acordado os franceses para a importância do pleito que definirá os rumos do país em um momento delicado de sua história. Por delicado entenda-se 9,8% de desempregados (o índice mais alto desde 1999), os gastos públicos mais elevados da zona do Euro (56% do PIB) e uma previsão de crescimento de apenas 0,5% em 2012.¬¬ As novidades saídas das urnas foram pelo menos duas: pela primeira vez um presidente candidato à reeleição não é o mais votado e pela primeira vez a extrema direita, representada pelo Front National de Le Pen, obteve uma votação tão expressiva a ponto de se tornar o fiel da balança do segundo turno.
Os significativos 17,9% dos votos obtidos por Marine Le Pen animaram o Front National a estender a sua tradicional caminhada do 1 de Maio para uma grande manifestação em frente à Ópera de Paris. Diante de milhares de militantes, Le Pen brandiu seu corolário que vai do fim do Euro à condenação dos imigrantes, passando pelo protecionismo econômico. O anacronismo do discurso político de Le Pen – ilustrado pelo culto à figura de Joana D’Arc – é espelhado pela massa a sua frente. Composta essencialmente por idosos e habitantes do interior da França, a turba carrega bandeiras das regiões do país, como a Bretanha, que são em geral ornadas com motivos tipicamente medievais. Parte das flâmulas é presa não a mastros, mas a lanças com ponta de metal. Empunhando uma delas, o aposentado Jean Courtois, 69 anos, conta que ele e a mulher, Simone, viajaram 800 quilômetros desde a região de Avignon para ver Le Pen.

– No interior há muita imigração. Não somos contra a imigração, mas é preciso haver integração, e isso não acontece – explica.
Sobre quem vai votar no segundo turno, Courtois faz mistério, mas se resume a dizer que nenhum dos candidatos lhe serve, a exemplo do discurso de Le Pen, que anunciou o voto em branco e ironizou os dois candidatos:
– A verdade é que não temos nada a esperar do UMPS (a união das siglas UMP, partido de Sarkozy, e PS, de Hollande). E ninguém poderá nos culpar! Eles serão os únicos responsáveis!
A transferência dos votos de Le Pen para os outros dois candidatos é uma incógnita, mas as pesquisas mostram que a coerência ideológica que indicaria a migração dos votos para Sarkozy não deve ocorrer. As tentativas da campanha do presidente de se aproximar do eleitorado de Le Pen, no entanto, são evidentes. Entre as 200 mil pessoas que foram à Place du Trocadéro manifestar apoio a Sarko (uma estimativa otimista feita pela própria organização do evento) chamavam a atenção as camisetas da “Juventude com Sarkozy”. Estampavam o moderno polegar do “curtir” do Facebook ao mesmo tempo mandavam um recado claramente direcionado aos eleitores de Le Pen: “Se abster é dar o direito de voto aos estrangeiros”. A frase se refere à proposta de François Hollande de permitir o voto de estrangeiros nas eleições municipais. Integrante da Juventude com Sarkozy, o estudante universitário Valentin Blas, 19 anos, não pensa mais de três segundos antes de responder qual é a sua motivação ao apoiar Sarkozy:
– É a meritocracia. Temos a tendência a ter um Estado assistencialista e que não valoriza o trabalho.

“Pagar mais para quem trabalha mais” é um dos motes da campanha de Sarkozy neste ano e foi repetido à exaustão nos discursos de seus correligionários diante da Torre Eiffel. Brasil, China e Índia foram apontados como países em que a juventude trabalharia acima da média e exemplos a serem seguidos. Apesar dos números não tão animadores da economia francesa, a tese do UMP se baseia no argumento de que a França enfrentou a crise europeia melhor do que seus vizinhos Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia. A proposta de François Hollande de criar 60 mil postos no funcionalismo público é usada por Sarkozy para sugerir um possível descontrole das contas públicas em caso de vitória socialista.
– Nós não queremos a luta de classes, nós não queremos o socialismo! – bradou Sarkozy.
Mas a localização dos candidatos no ensolarado feriado de Paris foi ela própria uma bela alegoria da luta de classes na França e mesmo da divisão racial. Sarkozy reuniu seus eleitores no 16ème, o distrito mais rico da cidade, famoso por seus habitantes “bling-bling” (como os franceses chamam pessoas com modo de vida ostentatório e como chamam o próprio Sarkozy, o “presidente bling-bling”). Já a passeata anual dos sindicatos, que mesmo sem a participação de François Hollande se converteu numa manifestação por sua candidatura, reuniu milhares no lado oposto da cidade, o oeste, de bairros mais pobres e repletos de imigrantes.
Assim como se viu no grande comício de Hollande no último domingo, no ginásio de Bercy, a massa que se reuniu na Praça da Bastilha ontem era composta por operários e por uma população negra praticamente ausente entre a multidão do Trocadéro. Chamava a atenção, tanto no domingo quanto ontem, as manifestações de ódio em relação a Sarkozy, estampadas em cartazes ofensivos e desenhos do presidente caricaturado como o diabo. Cartazes, adesivos e camisetas de repúdio a Sarkozy eram mais numerosos que os de apoio a Hollande. O trabalhador social Cada Abraham, 55 anos, carregava um deles em que se lia: “Filho de Pétain”, um trocadilho entre o famoso termo ofensivo e o nome do militar Philippe Pétain, chefe do governo provisório nazista na França.

– A situação na França hoje é perigosamente próxima do fascismo. Voto em Hollande porque quero tirar Sarkozy. Depois vemos o que acontece. É um voto por nós, não por Hollande – resume Abraham.
O ódio pela figura de Sarkozy se tornou tema de debate nos últimos dias. Para especialistas, muito mais do que as políticas públicas, o presidente, enquanto personalidade, representa uma afronta aos valores que os franceses mais prezam. Uma das interpretações mais lúcidas da “sarkofobia” foi feita pelo escritor Andre Bercoff, autor de “La Chasse au Sarko” (A caçada a Sarko), em depoimento à BBC:
– Os franceses estavam felizes em serem liderados por pessoas como Mitterrand ou (Jacques) Chirac, líderes que nutriam sua crença pós-revolucionária de que os franceses eram uma espécie de povo escolhido para quem as regras normais da economia não se aplicam. Mas Sarkozy destruiu essa ilusão.
Em parte, foi em busca dessa ilusão – que remete a permanente nostalgia por uma França que não existe mais – que muitos franceses votaram em Marine Le Pen no primeiro turno. E também em busca dela, indicam as pesquisas, deverão eleger François Hollande no domingo.





