Enquanto correspondente em Paris, me desloquei até a capital inglesa em 2011 para cobrir as revoltas e saques que levaram milhares de pessoas a depredar lojas nas ruas para os jornais Zero Hora (RS) e Diário Catarinense (SC). Clique para ampliar e ler:

Abaixo, segue um relato pessoal da cobertura feito na época.
Estive em Londres ao longo da semana, reportando as revoltas. O relato pode ser lido na edição deste domingo dos jornais Zero Hora (RS) e Diário Catarinense (SC).
Reservei aqui para o blog um pouco da reflexão sobre as causas destes conflitos nas ruas de Londres, fruto de conversas que tive ao longo dos três dias com locais e imigrantes, e de boas análises que li por lá. Já na quarta-feira, dois dias após a pior noite de violência, tanto eu quanto vários jornalistas e sociólogos da imprensa inglesa tínhamos elementos suficientes para desenhar, em linhas tortas, o que Zygmunt Bauman (sempre ele) dissecou com perfeição nesta entrevista ao O Globo. O termo que ele empregou, “o motim de consumidores excluídos”, define com precisão a motivação dos bandos que saquearam a cidade nos últimos dias.
Sim, é verdade que o estopim dos distúrbios foi o assassinato de um jovem de Tottenham pela polícia. É também verdade que as relações entre polícia e jovens descendentes de imigrantes (a grande maioria ingleses nascidos no país), especialmente com jovens negros, é tensa. É verdade que estes jovens têm um padrão de vida operário, mais baixo do que de outros grupos sociais. Mas uma caminhada por Tottenham, o bairro-bomba, revela que estes jovens estão longe de ser pobres ou totalmente marginalizados pelo Estado. Se por um lado enfrentam a hostilidade cotidiana de um dos braços dele – a polícia –, por outro vivem nos bairros que mais recebem seus benefícios sociais. E isso inclui auxílio moradia, complementação de renda, custeio de transporte e uma infinidade de outros benefícios que, é também verdade, vêm sofrendo cortes nos últimos anos. Mas seguem existindo e permitindo a todos ter um mínimo de condições dignas de vida – muito distante da realidade de paises em desenvolvimento como o Brasil. Só para dar um exemplo, na rua mais atingida de Tottenham, a High Road, deparei com um belíssimo centro público esportivo e uma belíssima biblioteca pública.
A situação não é desastrosa, mas, também é verdade, os empregos que restam para os jovens destes bairros são os piores da Inglaterra. O que temos é um imenso contingente de pessoas querendo consumir algo para o qual não tem poder aquisitivo. O perfil dos saques dos dias seguintes – que nada tinham a ver com protestos contra a polícia ou o Estado – deixou isso claro. Trata-se de uma juventude que não se conforma em não ter o último tênis e o último telefone celular, mas trabalha servindo café no Starbucks. Como comprar tudo isso com salário do Starbucks? Impossível. Uma sociedade em que alguns podem comprar iPhone e a maioria só pode comprar o Nokia chumbrega sempre existiu. No Brasil, nossos pais e avós, com freqüência, foram operários ou agricultores de muito baixo poder aquisitivo. A diferença é que essa impossibilidade de consumir o que havia de melhor parecia não perturbá-los tanto quanto perturba estas novas gerações. Mesmo nas sociedades menos desiguais e mais justas da Europa, a maioria da população não tem e nunca teve condições de consumir só o melhor. Para os copycats londrinos, no entanto, ter um iPhone, por exemplo, é visto quase como um direito social. As mensagens de celular enviadas pelos revoltosos convocando para os saques são interessantes. Elas convocam os amigos a irem “finalmente enriquecer”. Uma delas, esclarecedora, diz “não estamos falidos, mas quem não gosta de pegar coisas de graça?”. Como bem definiu Bauman, são “pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso.”
O que é preciso debater agora é: em que momento o sujeito que não pode comprar um iPhone passou a achar que a felicidade dele depende de ter aquele iPhone? Um problema bem mais complexo. É uma questão de valores, como Bauman vem nos avisando há muitos anos em seus livros. As tentativas de responder a essa pergunta passam invariavelmente pelo argumento da propaganda desenfreada e da cultura do consumo. Um amigo que mora na Espanha se disse impressionado com os comerciais de televisão que vê por lá: não há um único que não relacione conquista, amor, prazer e felicidade à venda de qualquer produto, do papel higiênico ao rabanete. Sim, a propaganda ajuda a “sacralizar” bens supérfluos e a nos dizer que é impossível ser feliz sem um iPhone. Mas isso não foi sempre assim? A propaganda moderna, afinal, não nasceu para isso: criar sentimentos que nem sabíamos que existiam? Por que o nosso “escudo” contra a propaganda, que sempre funcionou razoavelmente, enfraqueceu? Qual é, afinal, o elemento novo nessa mistura que levou jovens a transformar o consumismo em revolução?
Difícil precisar, mas me parece que os melhores palpites passam pelas questões culturais e de valores que o próprio Bauman tão bem vem decifrando. A ascensão do hip hop como a música jovem hegemônica no mundo é bastante simbólica. Ídolos do passado costumavam virar referência ou por fazer boa música, ou por serem bonitos, ou por venderem um discurso arrebatador com “fim coletivo”, seja a rebeldia dos punks ou o bem comum dos hippies. Os ídolos do hip hop – produtores ou reprodutores do novo conjunto de valores dessa geração – vendem a importância de ser rico na vida. Nada mais. Nas entrelinhas de todas as letras e mesmo na estética, este é o recado. Assista a um vídeo-clipe de hip hop e compreenda os saques exclusivamente a lojas de telefones celulares, TVs digitais e roupas de griffe ocorridos em Londres.
A ascensão deste discurso consumista não acontece por acaso. A verdade é que ele foi tudo o que restou, se considerarmos o fim das utopias políticas e o desaparecimento das religiões na Europa. Não há mais espaço para qualquer tipo de discussão de valores subjetivos, como os que a religião e a política, para o bem ou para o mal, tentavam incutir nas pessoas – e com particular êxito nos jovens. Afinal, quem nunca se deixou impressionar um pouquinho pelo discurso do colega comunista no colégio? Este colega barbudo, se vivesse hoje em dia em Tottenham – ou em qualquer favela brasileira – e convidasse algum colega a se juntar ao seu grupo revolucionário, muito provavelmente ouviria como resposta uma outra pergunta “o que é que eu ganho com isso?”.
As tentativas de produção de novas utopias não acabaram – a Guerra ao Terror no Ocidente e a Jihad no Oriente Médio estão aí para nos mostrar. A diferença é que o público não as compra mais. Se é verdade que há uma meia dúzia de malucos de extrema-direita na Europa e algumas várias dúzias de malucos extremistas no mundo islâmico, também é verdade que elas são minoria. Para a nova geração, não há discurso de Maomé ou de Jesus Cristo, de comunismo ou de fascismo, que resista ao McDonald’s ou ao Ipod. Quer dizer, a substituição das utopias antigas pelo trio “individualismo, hedonismo e consumismo”, de forma geral, trouxe mais benefícios para a sociedade do que o contrário, na medida em que nos afastou do autoritarismo político e religioso. Mas os eventos de Londres nos mostraram um lado negativo desta substituição que até então não tinha se materializado na forma de violência tão explicita.
PS.: Vale a pena ler esta entrevista do meu amigo Andrei Netto com um jovem de Tottenham.





