Cobertura do terremoto que arrasou a cidade de L’Aquila, na região central da Itália, abril de 2009. Texto e fotos para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Clique na imagem para ampliar e ler:

Abaixo, segue um relato pessoal da cobertura feito na época
Diz o Ricardo Freire que viagem não é aquilo que você faz visitando pontos turísticos. É aquilo que você faz no caminho entre estes pontos turísticos – incluindo todos os contratempos e surpresas que vão surgindo. Estou tentando mentalizar isso para me conformar com o fato de, logo após o dia mais difícil na Itália até agora, eu ter perdido o trem para casa e estar numa cidade aparentemente desconhecida com o celular quebrado e com a fonte do notebook quebrada.
O dia começou às 7h, quando parti finalmente em direção à L’Aquila, a cidade mais importante entre as destruídas pelo terremoto de segunda-feira. O acesso foi difícil, por estradas secundárias, mas não houve maiores contratempos e, graças ao 3G do colega Leandro Demori, consegui mandar matérias do meio dos escombros.
O clima na cidade já não é tão ruim, passados alguns dias. No acampamento para desabrigados, há até risos e certa alegria. Os bairros mais afetados, no entanto, seguem isolados pela polícia, que permite só a moradores a entrada para retirar pertences – mesmo assim com cuidado, porque qualquer coisa pode desabar. Despistei alguns dos carabinieri e me embrenhei entre os prédios destruídos. A impressão é de uma cidade fantasma e – a julgar pela quantidade de mortos que restaram entre aqueles tijolos – podemos dizer que de fato é habitada por fantasmas. A sensação ao caminhar entre as ruas silenciosas é de permanente calafrio. O mais chocante é ver as paredes “recortadas”, que expõem à rua um quarto, uma cozinha ou uma sala. É a intimidade de uma vida que se perdeu – ou quase – que fica exposta. Um guarda roupa aberto, roupas espalhadas pelo chão. Várias portas e janelas ainda escancaradas, deixadas para trás por fugitivos desesperados.
O chão tremeu meio minuto sem parar, de forma muito forte. Testemunhas relatam que não conseguiam ouvir os próprios gritos, tão alto era o barulho do mundo desabando. Um retrato fiel do inferno, caso ele existisse.
Tentei abstrair o choque permanente ao longo do dia, e retornei ao hotel em Giulianova, na beira do Mar Adriático. Na cidade, experimentei com o casal de amigos Demori e Ana a primeira pizza na Itália. Sim, é algo realmente diferente. Sim, é algo realmente fantástico. Esqueça o que você já ouviu sobre “massa fina”. É massa fina MESMO. Como papel. Logo, cada um de nós três comeu uma pizza grande inteira, e levantou sem sentir nada. A impressão que dava é que se poderia comer três daquelas, algo impensável para uma Pizza Hut ou mesmo para qualquer massa que nós no Brasil consideramos fina.
Encerrada a cobertura do terremoto de barriga cheia, o passo seguinte, e que me leva a este quarto de hotel numa cidade sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar, foi rumar de carona, no carro do Demori, até Civitanova. Trata-se de uma cidade litorânea como Giulianova. Aqui eu deveria pegar um trem até Castelraimondo. Mas perdi. Como se não bastasse, meu celular parou de funcionar e a fonte do meu notebook também. Uso neste momento um emprestado pelo proprietário do hotel. Mas, voltando ao Ricardo Freire, este tipo de problema em sequência pode ser parte interessante da viagem. E não deu outra: descobri que esta cidade, que provavelmente eu nunca visitaria na vida, é uma das mais divertidas da costa do Adriático. Tem um leve ar glamouroso, ao estilo de Punta del Este, com muitas lojas de grife e uma noite aparentemente agitada.
Não estamos em alta temporada e eu também não estou com muita disposição para desbravar a noite de Civitanova. Mas uma caminhada até a praia agora na madrugada, mesmo com o frio, pode ser providencial para deixar os fantasmas de L’Aquila para trás.




